quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
Tensão superficial da poesia, de Fiori Esaú Ferrari
Conheci o Fiori quando trabalhava na Prefeitura, ele, professor de Português, eu, de História e o que mais tivesse, na EMEF Olavo Pezzotti, em 2011. Tivemos rápida identificação um com o outro em função de nossos interesses por poesia e música. Desde então, acompanho seu trabalho, vejo o que ele publica no Facebook e em blogues, mas até poucos dias atrás não tinha lido o livro que lançou ano passado, "Tensão superficial da poesia".
Como farei muitos elogios, devo deixar claro que o conhecimento pessoal que tenho do colega Fiori, a amizade que desenvolvi e a simpatia por seus ofícios artísticos não pesam na admiração que tenho por sua escrita. Essa admiração estaria intacta se eu não o conhecesse pessoalmente, embora eu creia que, nessa circunstância, talvez eu não tivesse a sorte de descobrir sua poesia.
Logo que li seus versos, seus poemas, suas intervenções nas redes, percebi que havia algo em seu jeito de escrever que admirava. O tempo passa, atribuições surgem, vemos pouco as pessoas que não trabalham mais com a gente, entendo que seja assim mesmo. No entanto, pude acompanhar o escritor Fiori durante todo esse tempo que passou. Pude entender que seu livro é uma coleção excelente da sua produção, que, acreditem, é bem mais ampla. E tive o prazer de, lendo "Tensão superficial da poesia" em sequência e com espírito leve, perceber que é coisa fina. Foram duas noites para ler tudo. Serão muitas releituras, por certo.
Gosto muito do estilo do Fiori, de buscar imagens e palavras intensas e simples, concretas e espirituais. Seu artesanato de ideias tem um toque especial daquela vivência de mundo que dialoga com a vivência das letras. Esse é um tema que lhe é caro, e que ele desenvolve de maneira íntegra, original, sem lugares-comuns, sem pieguice. Gosto das imagens de Itapetininga, desenvolvidas numa emoção que rasga o específico local em direção ao topos universal do lugar de origem. Gosto da liberdade com que as palavras são desencravadas das frases e usos convencionais para adquirirem nova dimensão no tecido das observações e reflexões construídas. Gosto do ritmo dos versos, principalmente. A leitura em voz baixa ou com locução mental, que é um costume meu, permite saborear os elementos prosaicos e entoativos que se articulam numa cadência própria, marcante.
Fiori atende a muitas das minhas expectativas enquanto leitor de poesia, e espero que continue a publicar, e que as obras sejam tão bacanas quanto esta.
Quando eu pedi o link para comprar o livro, perguntei a ele como fazer. Ele me mandou as instruções, mas junto com elas enviou também alguns poemas, para que eu me "certificasse" do que ia adquirir. Gentileza, sem dúvida, mas não precisava. Repito aqui o que disse a ele via Face: sou fã. Sou mesmo. É uma poesia que me instiga, que me dá enorme prazer na leitura. Recomendo, muito.
Deixo um gostinho aqui:
CENA SIMPLES
Eu tive que recolher as pedras
e as pedras foram deixadas pra trás.
Eu tive que carregar o necessário
e o necessário pesou tanto...
Eu achei simples a comunhão das mãos
mas a simplicidade se foi no estranhamento dos corpos.
Eu saí sob o luar e repentinamente
me senti sozinho.
Arrumei com sentimento
uma fogueira.
Um livro de guerrilha,
um poema na memória
orvalharam pelo rosto.
Sozinho ainda prolonguei o assunto de poesia
até adormecer.
Pra me fazer companhia,
os olhos falsos dos vagalumes
traziam estrelas.
(FERRARI, Fiori. Tensão superficial da poesia. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2016, p. 124-125.)
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
Dreams of Gods and Men, do Myatan
Com estilo bem definido de metal progressivo (bem progressivo nos arranjos e bem metal nos vocais e nas letras), Myatan lançou este bom álbum em 2008. A banda esmera-se em produzir um trabalho com grande qualidade de arranjo e execução, sustentados por masterização em estúdio americano (Ohio), belas imagens de capa e de encarte, participações especiais, tudo muito bem produzido, editado e organizado. As canções apresentadas, como geralmente ocorre no rock progressivo, exigem audição atenta, possuem várias partes diferentes e muitos detalhes de arranjo. Provavelmente por fidelidade à história do gênero, ou por interesse em investir no mercado externo, na lógica de Sepultura e afins, todas as letras são compostas em inglês, embora o nome da banda venha do Tupi. O conteúdo não foge às convenções do estilo: referências à luta interior, a aspectos sombrios da mente e à vontade de transformação. No todo, é um trabalho de fôlego, musicalmente brilhante e sob medida para os que gostam dessa linha. Não deve nada às grandes bandas do cenário nacional ou mundial.
Destaques: a faixa de abertura "Equilíbrio", a bela e mais cancional "Lapse of Reason", a faixa-título com sua levada mais pop, as introduções progressivas de "Throughout Madness" e "The Unknown", o estupendo trabalho de bateria (Luiz Biank), o bom gosto dos timbres dos teclados (Fábio Luís, meu comparsa da Rádio Bits).
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